"Certo dia as esposas do sheik Abdul Qadir al-Gilani se aproximaram dele e disseram: 'Ó possuidor do melhor dos caracteres, teu pequeno filho está morto, e não vimos uma única lágrima em teus olhos, nem tampouco mostraste nenhum sinal de tristeza ou de pesar. Não tens nem um pouco de compaixão por alguém que é uma parte de ti? Nós mesmas estamos encolhidas de dor, enquanto tu segues adiante com teus assuntos como se nada tivesse ocorrido. Tu eras nosso mestre, nosso guia, nossa esperança neste mundo e no próximo, mas se teu coração é duro e não há misericórdia nele, como poderemos nós, que esperávamos contar contigo no Dia do Juízo, acreditar que tu nos salvarás?'.
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domingo, 3 de novembro de 2024
sábado, 4 de novembro de 2017
Por dentro de uma escola sufi iraquiana
Trazemos agora um texto sobre uma escola naqshbandi do Iraque. Neste link, aqui no blog, há uma performance por devotos canadenses dessa linhagem sufi.
Por dentro de uma escola sufi iraquiana
Honar Hama Rasheed
Um menino magro de 10 anos atravessa o pátio da escola de educação religiosa onde ele estuda há um mês. O garoto, Mirin Mohammed, veio do distrito de Darbandikhan, sudeste da cidade de Sulaymaniyah, na região semi-autônoma do Curdistão iraquiano. Foi matriculado lá porque seu pai quer que seja um clérigo no futuro, mas no momento o garoto está apenas faminto e tenta espiar a cozinha para saber qual será a próxima refeição.
sábado, 15 de julho de 2017
A mística que escandaliza os ortodoxos
O fragmento abaixo, sobre o sufismo, é do acadêmico holandês Peter Robert Demant (não confundir com o escritor russo Peter Demant). A imagem que ilustra o post é o santuário do mestre sufi Abdul Qadir al-Gilani (1078-1166), em Bagdá, Iraque.
O sufismo
Peter R. Demant
A ortodoxia que hoje em dia constitui a versão normativa do islã conquistou tal posição gradualmente, mediante lutas, muitas vezes radicais, contra o que originalmente era uma religião mais pluralista. Ao longo de sua história, o islã desenvolveu uma variedade de estilos religiosos que constituíam opções para os fiéis. Uma dessas era o misticismo movido pelo “amor a Deus”, o qual, carregado de influências monásticas cristãs e gnósticas, buscava a reunião da alma com o Criador. A ênfase do islã na distância entre Deus e suas criaturas (associada à ausência de tendências ascéticas) não parecia predispô-lo à meditação. Contudo, havia sempre indivíduos a quem uma religião primariamente ritual e social não satisfazia. Tentativas para estabelecer um laço mais íntimo e individual com Deus apareceram desde o século VIII. Místicos desenvolveram uma gama de técnicas espirituais para alcançar a experiência da proximidade e da união com Ele (a mais conhecida é o dhikr, lembrança, que consiste na repetição dos nomes divinos para alcançar um estado de êxtase).
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Elogio do sono
Os atos de dormir e sonhar sempre tiveram forte carga simbólica. A perda, por algumas horas, do contato consciente com o mundo exterior decerto assombrava o homem primitivo. É sintomático que entre os gregos Hypnos, o deus do sono, seja irmão de Tánatos, deus da morte. Um dos filhos de Hypnos é Morfeu, que por sua vez é deus dos sonhos, daí o nome do opiáceo morfina. A associação entre morte e sono aparece de forma poeticamente bela no texto corânico:
Ele é Quem vos recolhe, durante o sono, e vos reanima durante o dia, bem sabendo o que fazeis, a fim de que se cumpra o período prefixado (6: 60)
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Quando a religião é o próprio amor
Trazemos agora mais Jalal ad-Din Rumi. O poema abaixo é uma versão nossa a partir da versão em inglês de Shahram Shiva, e foi originariamente publicado em outro de nossos blogs em agosto de 2013 (aqui).
Quando a religião é o próprio amor
Jalal ad-Din Rumi
Saiba: o verdadeiro Amante
não tem religião.
Não há crença ou descrença,
já que a religião é o próprio Amor.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Amar a beleza é pecado, diz meu inimigo
Traduzimos agora um poema de Imad ad-Din Nasimi, nascido no atual Azerbaijão em meados do século XIV e executado por heresia pelas autoridades da época, por ser adepto da doutrina sufi do hurufismo. A forma da morte foi brutal: o poeta místico teria sido esfolado vivo. Em algumas fontes, Nasimi (ou Nesimi; não confundir com Kul Nesimi, poeta otomano do século XVII) recebe o título de Sayyd, o que indica que seria descendente do Profeta Muhammad.
A nossa versão foi feita com base na tradução para língua inglesa de Latif Bolat and Jennifer Ferraro, e foi extraída aqui, onde se pode ver também a versão em turco.
E daí?
Imad ad-Din Nasimi
Eu vesti o manto da vergonha
e a honra e a virtude despedacei em uma pedra.
E daí?
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Através da eternidade
Segue abaixo versão nossa para poema de Rumi, retirado do Divan de Shams. O poema pode ser encontrado aqui em inglês e aqui em espanhol, em versão estendida. O giro sufi que ilustra o post é "Whirling Dervishes", pela artista polonesa Jolanta Shiloni, e foi extraído aqui.
Através da eternidade
Jalal ad-Din Rumi
Através da eternidade,
em meio ao nada,
o rosto dele
a beleza desvela:
com um espelho diante de si
contempla-se embevecido.
terça-feira, 24 de maio de 2016
Teu coração e o meu
Versão nossa para poema atribuído a Hafiz de Shiraz (século XIV), a partir desta versão em inglês. A imagem que ilustra o post é da capa do "Divan" de Hafiz, edição iraniana de 1994.
Teu coração e o meu
Hafiz Shirazi
O medo é o aposento mais barato da casa.
Gostaria que vivesses
em melhores condições:
sexta-feira, 20 de maio de 2016
O Sutil
Meditemos agora na Divindade enquanto Al Latif, o Sutilíssimo. Nem tudo é ribombar, estrondo e magnitudes cósmicas; o milagre se revela aqui mesmo, de forma tênue, pequenino, muitas vezes despercebido. Há supernovas em meio às estrelas, mas há também o bater de asas da borboleta. E as formigas? Também integram a Criação (dão nome à 27ª surata) e nada Lhe escapa, "nem mesmo algo do peso de um átomo" (34: 03, v. Hayek). O intricado universo das partículas e da física subatômica, aliás, é fascinante mesmo aos olhos do indivíduo mais insensível.
terça-feira, 5 de abril de 2016
Se Deus é encontrado através das abluções...
Trazemos abaixo outra versão nossa para versos de Bulleh Shah, sobre o qual falamos em outro post. É baseada na tradução inglesa de Fuad Usman Khan, extraída aqui.
Como na poesia anterior, também aqui há uma irreverente crítica à manifestação religiosa meramente formal, isto é, exotérica; quando prende-se mais à forma do que ao conteúdo. Por pura que seja a água da ablução (wudu), pode lavar um coração mal intencionado? Assim seguimos nos enganando, acreditando que a mera ritualística exterior seja suficiente.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Al-Madad, Ya Rasul Allah!
A performance a seguir é do grupo marroquino-canadense Burdah Ensemble, e traz uma bela homenagem ao Profeta Muhammad -a paz e as bençãos de Deus sobre ele e toda a Casa Profética-, na melhor tradição da poesia sufi. Neste link, está a letra em árabe. Abaixo, em português, a nossa versão a partir das legendas em inglês no vídeo.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Como uma máscara para mistérios
O trecho a seguir é de "Os místicos do Islã", de Reynold Nicholson, na tradução de Julia Vidili (Madras Editora, 2003). A obra, de 1914, pode ser lida em inglês aqui, e tem como tema o sufismo.
O fragmento que reproduzimos abaixo fala da ambiguidade na poesia sufi. A imagem que ilustra o post é o muezzin e sua chamada para a oração (adhan, azan), pelo francês Jean-Léon Gérôme (1866).
Quem quer que conheça, mesmo que pouco, a poesia mística do Islã deve ter notado que a aspiração da alma a Deus é expressa, via de regra, quase nos mesmos termos que poderiam ter sido usados por um Anacreonte ou Herrick oriental. A semelhança, de fato, é frequentemente tanta que, a menos que tenhamos alguma pista sobre a intenção do poeta, ficamos em dúvida quanto ao significado.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Já leste contudo teu próprio Eu?
O poema abaixo é de Bulleh Shah e trata de um tema muito caro ao sufismo: a diferença entre a religião formal, exterior, e a interna, esotérica. Na maioria absoluta dos casos, as pessoas estão focadas apenas na primeira. Assim, a religião se converte em uma mera sucessão de práticas rituais, em detrimento da reforma íntima que é o mote da via espiritual.
Bulleh Shah (1680-1757), nascido no Punjab paquistanês, foi poeta, filósofo e humanista. Neste link, há sua biografia. Nós escrevemos a versão abaixo a partir da versão em inglês de Mahmood Jamal (aqui).
Olha para ti
Tu aprendeste tantoe mil livrosjá leste.
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