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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A busca segue incompleta


Publicamos abaixo nossa versão para um poema de Hamza Shinwari (1907-1994), poeta paquistanês da etnia Pashto [Pachto, Pashtun]. Na fonte indicada ao final há o poema no original e em inglês. O tema, conforme interpretamos, é a busca constante através do tempo; uma jornada repleta de dificuldades e riscos, mas o paraíso (jannah) está no horizonte.

Aproveitamos o ensejo para fazer uma observação. Os poemas que temos publicado aqui no Oceano da Paz são, em regra, versões de versões, ou seja, trazemos os versos para o português a partir das traduções em inglês ou espanhol do original (seja árabe, urdu etc.). Nesse processo, trabalhamos estilisticamente as palavras, suprimimos ou sintetizamos outras, adaptamos ou modernizamos algumas expressões. Tentamos preservar o espírito daquilo que entendemos como tendo sido a intenção do poeta, mas não podemos garantir o rigor. Portanto, tenha o leitor em mente que o poema abaixo -assim como os demais, como dito- são mais poemas reconstruídos do que meramente traduzidos. Diz o bordão, "Traduttore, traditore" ("Tradutor, traidor"). Se nenhuma tradução é exata, que dirá a tradução da tradução- ainda mais em termos de poesia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O poeta e os anjos


O trecho abaixo é um fragmento do poema "Uivo" (Howl), de Allen Ginsberg (1926-1997), poeta da Geração Beat. Em meio a seus versos de teor subversivo e irreverente (a publicação do poema rendeu um processo judicial por obscenidade em 1957), há a referência a uma experiência transcendental vivida por outro poeta beat, Philip Lamantia, que teria visto "anjos maometanos" (Mohammedan angels) durante um transe.

No Corão, os anjos, ao lado dos homens e djinns, são os seres inteligentes da Criação. A crença neles -presente em toda tradição abraâmica- é tão relevante que o texto indica, dentre vários versículos, que "a verdadeira virtude é a de quem crê em Allah, no Dia do Juízo Final, nos anjos, no Livro e nos profetas (...)" (2:177).

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Elogio do sono


Os atos de dormir e sonhar sempre tiveram forte carga simbólica. A perda, por algumas horas, do contato consciente com o mundo exterior decerto assombrava o homem primitivo. É sintomático que entre os gregos Hypnos, o deus do sono, seja irmão de Tánatos, deus da morte. Um dos filhos de Hypnos é Morfeu, que por sua vez é deus dos sonhos, daí o nome do opiáceo morfina. A associação entre morte e sono aparece de forma poeticamente bela no texto corânico:

Ele é Quem vos recolhe, durante o sono, e vos reanima durante o dia, bem sabendo o que fazeis, a fim de que se cumpra o período prefixado (6: 60)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Quando a religião é o próprio amor


Trazemos agora mais Jalal ad-Din Rumi. O poema abaixo é uma versão nossa a partir da versão em inglês de Shahram Shiva, e foi originariamente publicado em outro de nossos blogs em agosto de 2013 (aqui).

Quando a religião é o próprio amor

Jalal ad-Din Rumi

Saiba: o verdadeiro Amante
não tem religião.
Não há crença ou descrença,
já que a religião é o próprio Amor.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Amar a beleza é pecado, diz meu inimigo


Traduzimos agora um poema de Imad ad-Din Nasimi, nascido no atual Azerbaijão em meados do século XIV e executado por heresia pelas autoridades da época, por ser adepto da doutrina sufi do hurufismo. A forma da morte foi brutal: o poeta místico teria sido esfolado vivo. Em algumas fontes, Nasimi (ou Nesimi; não confundir com Kul Nesimi, poeta otomano do século XVII) recebe o título de Sayyd, o que indica que seria descendente do Profeta Muhammad.

A nossa versão foi feita com base na tradução para língua inglesa de Latif Bolat and Jennifer Ferraro, e foi extraída aqui, onde se pode ver também a versão em turco.

E daí?

Imad ad-Din Nasimi

Eu vesti o manto da vergonha
e a honra e a virtude despedacei em uma pedra.
     E daí?

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Através da eternidade


Segue abaixo versão nossa para poema de Rumi, retirado do Divan de Shams. O poema pode ser encontrado aqui em inglês e aqui em espanhol, em versão estendida. O giro sufi que ilustra o post é "Whirling Dervishes", pela artista polonesa Jolanta Shiloni, e foi extraído aqui.

Através da eternidade

Jalal ad-Din Rumi

Através da eternidade,
em meio ao nada,
o rosto dele
a beleza desvela:
com um espelho diante de si
contempla-se embevecido.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Mas não um estranho aos nossos olhos


Segue abaixo nossa tradução, em versos livres, para poesia de Nouri Sardar. O tema é Ali ibn Musa al-Ridha [Reza], (765-818 [?]), 8º imam do xiismo duodecimal. A reiterada insistência na palavra "estranho", no poema, é alusão ao período vivido pelo imam em Messhed [Mashhad, Mexed], em Khorasan, no Irã oriental, para onde foi levado de Medina por ordem do califa abássida Al-Ma'mun (também citado nos versos), daí ser conhecido como "O Estranho [Estrangeiro] de Khorasan". A imagem que ilustra o post é "Imam Reza" por "shia_ali", no sítio DeviantArt.

Mas não um estranho aos nossos olhos

Nouri Sardar

Outrora separado daqueles que ama,
hoje, rei de milhões de corações.
Se o pesar abate alguém,
conte a ele de Ali al-Ridha.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Teu coração e o meu


Versão nossa para poema atribuído a Hafiz de Shiraz (século XIV), a partir desta versão em inglês. A imagem que ilustra o post é da capa do "Divan" de Hafiz, edição iraniana de 1994.

Teu coração e o meu

Hafiz Shirazi

O medo é o aposento mais barato da casa.
Gostaria que vivesses
em melhores condições:

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Eles me dizem para não amaldiçoar Yazid


O pequeno texto abaixo é atribuído ao professor Sayed Ammar Nakshawani. O tema é o perdão e a misericórdia infinita da divindade -Ar-Rahman, Ar-Rahim, o Clemente, o Misericordioso- e também sobre a prática da lanah [la'nah], ou seja, a maldição imprecada contra inimigos. É prudente que não a façamos: tudo que vai, volta, caso imerecido. Mas se o amaldiçoado pode ser beneficiário de perdão, também o seria o amaldiçoador.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Se Deus é encontrado através das abluções...


Trazemos abaixo outra versão nossa para versos de Bulleh Shah, sobre o qual falamos em outro post. É baseada na tradução inglesa de Fuad Usman Khan, extraída aqui.

Como na poesia anterior, também aqui há uma irreverente crítica à manifestação religiosa meramente formal, isto é, exotérica; quando prende-se mais à forma do que ao conteúdo. Por pura que seja a água da ablução (wudu), pode lavar um coração mal intencionado? Assim seguimos nos enganando, acreditando que a mera ritualística exterior seja suficiente.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Já leste contudo teu próprio Eu?


O poema abaixo é de Bulleh Shah e trata de um tema muito caro ao sufismo: a diferença entre a religião formal, exterior, e a interna, esotérica. Na maioria absoluta dos casos, as pessoas estão focadas apenas na primeira. Assim, a religião se converte em uma mera sucessão de práticas rituais, em detrimento da reforma íntima que é o mote da via espiritual.

Bulleh Shah (1680-1757), nascido no Punjab paquistanês, foi poeta, filósofo e humanista. Neste link, há sua biografia. Nós escrevemos a versão abaixo a partir da versão em inglês de Mahmood Jamal (aqui).

Olha para ti

Tu aprendeste tanto
e mil livros
já leste.

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